Centro Auditivo Jaraguá

:: A música do deserto

No mundo, desertos são lugares místicos. Segundo a Bíblia eles eram locais de purificação, descoberta e tentação: Moisés levou os israelitas a uma marcha interminável pelo deserto de pedra do Sinai, e Jesus andou por 40 dias pelo deserto para um teste e uma preparação para o que estava por vir. Dizem que aquele que sobrevive ao deserto se torna uma pessoa diferente.

Se pensarmos no deserto hoje, a imaginação tende a construir uma planície árida e sem fim, refletindo o calor. Grandes dunas de areia, morros de pedra secos, formações rochosas bizarras fazem parte do cenário. Até Lawrence da Arábia e seu camelo podem ser vistos procurando por um poço de água. Com nosso ouvido interno, ouvimos a música hipnotizante que Antonioni usava como fundo em seus filmes, preferencialmente filmados no deserto.

Mesmo no desiludido mundo Pós-moderno ainda somos atraídos pela grandeza do nada (ou do quase nada): a natureza selvagem da Península Arábica; os Grandes desertos da Ásia Central, como Gobi e o Takla Makan, que Sven Hedin cruzou; o Saara, que define o norte da África e ainda desperta fantasias de cavaleiros pitorescos, membros da Legião Estrangeira, e misteriosas cidades escondidas em oásis; ou o bizarro deserto da Namíbia, no sul da África.

 

Até Walt Disney provou que o deserto tem vida no seu incomparável e poético filme A Bela Adormecida de 1959. Animais e plantas, vento e chuva, dias quentes e noites frias – nem mesmo o deserto é “vazio” como era o mundo no início da Criação. O deserto pode ser hostil à vida, quente e árido, mas é o lar de exemplares altamente especializados da flora e fauna. Se desconsiderarmos o canto ocasional de um pássaro, os animais do deserto costumam ser caçadores silenciosos: cobras, lagartos como o Monstro de Gila, escorpiões e suas presas potenciais, esquilos do solo e outros mamíferos pequenos. O deserto vive, mas a vida é bem camuflada e silenciosa – a ponto de ser quase imperceptível ao homem.

Mas porque será que escolhemos o deserto como tema a ser abordado aqui? O deserto é um lugar sem som. Viajantes frequentemente relatam com fascinação (e com certo medo) como o deserto absorve todos os sons. Um guia de viagem argeriano descreveu a experiência no deserto da seguinte forma: “Você ficará surdo com o silêncio do deserto. Não há nada para ouvir, pois o nada não pode ser ouvido”. É um silêncio que se torna fisicamente tangível – e é por isto que turistas, muitas vezes vindos de metrópoles barulhentas, são frequentemente atraídos pelo deserto. Estaria o misterioso silêncio do deserto tornando-se um forte argumento de vendas, transformando-o em um atrativo para turistas?

No entanto, o deserto não é totalmente mudo. Às vezes, com a ajuda de certos elementos, ele toca uma música maravilhosa - e selvagem! Podemos dizer que um deserto é uma caixa de ressonância única. Como criaturas vivas, eles podem cantar, zunir, gritar ou chorar. Por muito tempo, apenas os experientes sabiam disto, pessoas para as quais o deserto era o próprio habitat, como nômades e vaqueiros, viajantes, mercadores ou aventureiros que cruzavam o deserto em caravanas ou expedições. Pode ser extremamente ruidoso para um lugar onde você espera encontrar silêncio extremo, ou conscientemente busca tal silêncio. (E não nos referimos aqui ao rali Paris-Dakar que usa o deserto como parque de diversões e produz tanto barulho que outros sons não podem coexistir).

O próprio Marco Pólo relatou que, ao cruzar o deserto Takla Makan, ouviu um zumbido alto e misterioso, cuja causa ele não conseguiu discernir.  De acordo com as provas dos cientistas de Sorbonne em Paris, isso não foi uma alucinação: a areia é capaz de produzir uma grande variedade de sons. Na ocorrência de, por exemplo, avalanches de grãos de areia secos, ao ganhar velocidade escorregando por uma duna, o atrito entre as partículas de areia produz um som audível, um tipo de zunido que pode ser ouvido a quilômetros de distância. As cavernas e curvas das dunas concentram o som, e as ondas sonoras podem atingir até 100 decibéis – mais alto que os sons da cidade. No deserto do Marrocos existem milhares de dunas zunindo.

Dependendo do clima, condições do solo e topografia, os sons do deserto podem ser diferentes. Podemos dizer que o músico principal é o vento: onde ele encontra resistência e se perde entre desfiladeiros e penhascos, ele uiva, e assobia, cantando em diversas escalas. No Ahagar Massif, deserto na Algéria, aproximadamente 3000 metros acima do nível do mar, ou no Tibesti Massif em Chade, existem verdadeiras sinfonias de vento. Ao longo dos barrancos e penhascos das montanhas, que se levantam dos desertos arenosos, o vento trabalha para erodir o mundo por milênios – e ele não trabalha em silêncio. Além disso, o uivo das frequentes tempestades de areia faz parte da inesperada música de fundo da vida no deserto.

O contraste entre os sons do deserto e o silêncio que se segue quando o vento diminui e os elementos se acalmam é ainda mais expressivo – com o retorno a seu minimalismo primordial e tornando-se silencioso. 

 

Fonte: http://www.hear-the-world.com/br

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